« não sei como começar este texto, não sei se ele fará algum sentido, mas preciso de te transmitir tudo o que ficou por dizer, antes que rebente de mágoa e tristeza, antes que os dias se sucedam num absurdo tão vazio e idiota que me faça perder a vontade de viver. aceito a tua partida inesperada mas, permite-me deixar-te nestas palavras que serão certamente as últimas que terás de mim. tenho à minha frente o caderno que te comecei a escrever, uma espécie de diário da minha paixão contida por ti. fui muitas vezes na minha vida, infiel aos outros, mas sobretudo a mim própria quando me recusava a escutar o meu próprio coração, e tantas vezes o fiz que receei tornar-me igual a quase toda a gente. sou de mim mesma o meu maior carrasco, posso debruçar-me sobre isto para te falar não da verdade mas da minha verdade daquela que carrego dentro do meu coração. olho para trás e vejo com tristeza que os meus erros contaminaram as recordações do tempo, e isso faz-me sentir culpada das coisas que não fiz! por isso aplico a mim mesma uma espécie de auto-flagelação, esperando que a dor infligida apague a original, e quando a segunda se esfumar, pouco reste da primeira, a não ser o sabor eterno e amargo de uma perda irresponsável. oprimeiro erro que cometi foi ter-me "apaixonado" por ti. não sei ainda hoje explicar o que me aconteceu. talvez, sem quereres ou saberes, tenhas tocado nos pontos cardeais da minha insegurança, e deles se tivesse acendido uma luz que segui cega e surda. ou talvez me tenha "apaixonado" apenas pela tua imagem , quando te tornaste real aos meus olhos te tenha adaptado a um ideal humanamente perfeito. de qualquer forma foi o erro primordial, o primeiro de todos. o segundo erro, e deste assumo toda a culpa, foi não te ter escondido o que sentia. queria-te tanto que pensei que isso te obrigaria a sentires o mesmo. nós só amamos o que é diferente, tu tinhas essa diferença que me cativou. mas devia ter aprendido a decifrar melhor os teus sinais, antes de me denunciar com os meus. quando te foste embora, percebi que a tua porta se tinha fechado para sempre. o coração quando se fecha faz muito mais barulho que uma porta, e acredita, oiço ainda o barulho do teu silêncio. mas aprendi muitas coisas, entre as quais, que ficar quieta também é uma acção, e assim, parei de sonhar.
não te sintas tentado a sentir algum tipo de compaixão, lê-me apenas até ao fim é tudo o que te peço. o meu terceiro erro, já te disse qual foi. caímos num duplo equivoco: nunca acreditaste que eu gostava de ti e sempre gostei, nunca acreditei que não me amasses e afinal não chegaste sequer a gostar. outro dos meus erros foi de não reconhecer em ti aquilo que eu própria sou, o que me fez vitima das minhas próprias armas.
tu és um sedutor compulsivo e um jogador nato. seduzes para conquistar e jogas para ganhar. devia ter pressentido em ti que a sede de vitória iria sempre suplantar qualquer outro interesse. mas cometi ainda outro erro ao me calar, ao não te ter dito, desde o primeiro instante tudo aquilo que pensava. posso ser pouco frontal, mas não sou como tu, indefinido, indeciso, secreto, manipulador, subtil ao teu jogo, cauteloso com os teus passos. talvez não sintas tudo à flor da pele como eu, que sou toda feita de coração. tu és frio, foges dos sentimentos como uma criança de um cão grande. o teu cinismo e indecisão em relação ao amor criaram-te uma carapaça da qual nem tu próprio te consegues libertar.
gostei de ti de uma forma desajeitada, arrebatadora e incondicional, sempre querendo e desejando o melhor para ti. o melhor, só tu mesmo poderás encontrar e hoje estou certa que não passa por mim. não é a dor da rejeição que me massacra, é a dor de saber que nada poderá sobrar deste amor. guardo intacto tudo o que sinto por ti. mas é melhor que os nossos olhos nunca mais se cruzem, é melhor que a palavra adeus seja essa e não outra. chegámos ao fim do caminho, e a partir de agora todas as palavras serão inúteis.
nunca saberei até que ponto ages com o coração ou apenas com a cabeça, até que ponto te entregas ou apenas jogas, até que pontos sentes e ages, ou apenas observas. e é por nunca ter sabido quem és, que um dia te conseguirei esquecer. » pm.